Pousada de Santa Marinha da Costa

Guimarães, Santa Marinha, 1985

Tudo terá começado pela construção, no século IX, de uma pequena basílica na encosta da montanha da Penha, já sagrada desde a pré-história… 

No século X uma Condessa Galega aí levantou um mosteiro, depois ampliado por uma Rainha de Portugal… 

No século XVI um Duque de Bragança aí criará uma Universidade de Teologia… 

E foi crescendo sempre até atingir, no século XVIII, o seu esplendor… 

Em 1834, com a Revolução Liberal, a vida religiosa termina abruptamente e o edifício é transformado em habitação particular. Caminhando para a degradação é então adquirido pelo Estado para a construção de uma “Pousada”…

O critério geral adoptado no projecto da Pousada de Santa Marinha da Costa, cujas obras de construção se encontram em fase de acabamento, foi o de continuar inovando, isto é, o de contribuir para a prossecução da vida já longa do velho edifício, conservando e reafirmando os seus espaços mais significativos ou criando espaços resultantes de novos condicionamentos programáticos. 

Assim se inicia, se percorre e se continua, em permanente transformação, a vida de um edifício durante onze séculos, na certeza de que outros séculos virão e com eles outras transformações… 

Pretendeu-se aqui um diálogo, não de surdos que se ignoram, mas de ouvintes que desejam entender-se, afirmando mais as semelhanças e a continuidade do que cultivando a diferença e a ruptura. Diálogo que constitui um método pelo qual se sintetizaram duas vertentes complementares a considerar na alteração de uma pré-existência: o conhecimento científico da sua evolução e dos seus valores, através da Arqueologia e da História e uma concepção criativa no processo da sua transformação. É certo que a pousada introduzirá novo uso no velho mosteiro, mas é certo, também, que se os homens fazem as casas, as casas fazem os homens, o que justifica a manutenção, no novo edifício, de uma escala e de um ritual de espaços que, traduzindo a presença de um passado que seguramente não volta, aqui se recordam e utilizam pela actualidade do seu significado. 

E o que justificará também, e aqui, uma certa austeridade monástica manifestada através de uma grande economia de meios técnicos e de uma extrema simplicidade nas soluções adoptadas, quer a nível de espaço, quer a nível do seu tratamento e mobiliário, travando uma batalha, talvez perdida, contra o sensacionalismo exibicionista das formas, das cores, dos materiais, que persegue o nosso quotidiano. Enfim, e em resumo, talvez uma manifestação de “saudade” da ARCHITECTURA representada nos azulejos do antigo mosteiro… 


Fernando Távora, Porto, 1985